Monólogos em colisão
olha só
Andei refletindo bastante. Matutando. Escutei musica, desliguei a luz, baixei o som pra pensar mais livre. nada me incomodava. nada me atingia. nada tirava minha concentraçao. E um pensamento muito bonito tomou conta de mim. Uma força gostosa de sentir. Maior que meu proprio corpo. ondas de felicidade invadindo cada poro. deve ter sido uma das coisas mais bonitas que eu senti. Porque pensar de uma maneira porque se leu é uma coisa, senti-la porque aprendeu como funciona é outra totalmente diferente. É por isso que ninguem amadurece lendo livros ou vendo filmes. É preciso viver. A pele sentir. É preciso respirar profundo. De fora pra dentro.
E foi assim.
Eu senti.
Nada na vida é mais importante do que sempre dar o nosso melhor. Em cada pequena coisa. Se entregar de corpo e alma. Dar o coração, fazer com vontade. De sorriso aberto. Se esforçar. Mesmo que o retorno nao seja certo, mesmo que nao se saiba como a vida vai devolver. Nada é mais engrandecedor do que deitar na cama e pensar que mesmo que nao tenha dado em muita coisa, tentamos, nos esforçamos.
Gente que se dá por completo até nas menores coisas merece ser muito feliz. Sem dúvidas.
Um bom sabadão pra vocês.
Desabafo existencialista nº200
Oi? Pode começar? Eu não faço idéia de como vim parar aqui. Não sei exatamento o porquê de ter decidido me abrir com você. Sei que é pago pra isso e o canhotinho do cheque que deixei na recepção vai me lembrar durante todo o mês que não foi nem de perto barato. É que eu precisava falar sem que me olhassem como se eu fosse uma tremenda maluca. Afinal de contas, deve ter no mundo pessoas com idéias bem mais tortas que as minhas. Nem sei se as minhas são tortas. Diga-me você no fim disso tudo. Ou não diga nada, se assim for melhor.
Eu tenho uma maneira de agir meio louca. Eu me fechei pro mundo. Talvez a ausência paterna, talvez o vazio que ficou no lugar que antes era ocupado por o homem que eu mais admirava na vida tenha deixado um rombo gigantesco dentro de mim. Um negócio meio louco tipo buraco negro, que vezenquando suga tudo pra dentro dele. Imagine só que loucura, o único homem que jamais deveria trair minha confiança, me decepcionar, me abandonar, ter me deixado aqui. Como é então que eu não vou ter certeza que todos vão fazer o mesmo, mais cedo ou mais tarde?
Olha, eu nao sou o tipo amargurada que acha que nada dá certo na vida. Aliás, as coisas dão até bem certo pra mim. Eu vivo brincando de esconde com a sorte, vivo testando a bixinha, vivo enganando e ela ainda assim me encontra. Então, nao resta lá muito espaço pra mal dizeres.
E eu nem sei mesmo o que é que acontece. O fato é que eu me escondo. De quase todo mundo. Eu me dou, me dou e de repente me retraio. De repente eu corro, de repente nao quero mais nem conversa. E aí que acabo virando uma escrota, uma pessoa fria, alheia, desinteressada. Quando vejo que meu interesse por alguem tá aumentando demais, eu corto o bixinho pela raiz.
Poucas pessoas me conhecem de verdade. Tirando os exemplares clássicos da família, tipo mãe, avó, irmão, conto nos dedos de uma só mão quantos tiveram a oportunidade de conhecer a verdadeira Juliana. Não é que eu viva sendo falsa, me escondendo, coisa e tal. Não faço isso mesmo. Sou verdadeira, autentica, sempre fui. Sempre. Doa a quem doer. E doeu em muita gente, em mim, principalmente. Mas pra maioria das pessoas eu sou só a Juliana que passa, que gosta de festa, que fala bonito de vez em quando e que adorava tomar umas. Pois é, verbo no passado mesmo. Parei de beber.
Descobri que boa parte da minha insatisfação com a vida era causada por minhas escolhas. Não há quem aguente vida de farra. Não faz bem pra pele, pro cabelo e muito menos pro juízo. Eu sempre soube disso. Mas saber de uma coisa e agir da maneira certa as vezes são duas coisas bastante distantes. No meu caso, distância de alguns anos. Imaturidade talvez. Pra assumir que eu nao preciso assumir nada pra ninguem. Que meu compromisso é comigo e só comigo. Amigos são uma dádiva. Mas benção maior ainda é saber que cada um tem sua própria vida e é totalmente responsável por ela. De que adiantam todos os melhores conselhos da melhor amiga? Por mais que muito ela saiba, jamais ela sentirá o que se passa no intimo. Porque tem muita coisa que a gente não conta pra ninguém. Aquelas coisas indizíveis, pequenas, mínimas, que pensamos insignificantes, mas que simplesmente são as que realmente fazem toda a diferença.
Eu sou meio sozinha, eu acho. Sempre fui. A solidão sempre me pareceu muito mais adequada do que a maioria das companhias. Tenho poucos amigos, alguns colegas e uma prateleira enorme de livros. Meus fiéis e inseparáveis amigos.
Voce pode tá achando agora que essa foi a sessao mais simples de todas, ja que o que não me falta é lucidez.
Agora me diz… o que é que eu faço com tudo isso?
“eu sei do tempo, conheço seus danos…”
Ela sabe que ele ainda a ama em silêncio. doi nela também saber que nele doeu aquele caso que ela teve e que, isso ele não sabe, pouco importou. doi também nela estar com alguem ele ainda está só – e ora, quando brigavam ele era sempre o volúvel que logo estaria com outra, amando para sempre! – doi nela também. eles se amavam pelo certo, mas não se desligavam do duvidoso. há tempos eles nem se falam. ela ignora qualquer chamado. embora tenha chamado algumas vezes também. ela tem alguém, e escreve cartas pro novo, e isso ele não sabe. mas deve imaginar, ela sempre foi de cartas. ele escreve cartas pra elas ainda. guardadas numa gaveta com o cheiro do chocolate preferido dela, e toda vez que ele sente, ele tem a verteza de que ela não embra o chocolate preferido dele. mas isso não dói, não. ela sempre foi assim. dava valor às coisas vulgares. a cor preferida dele ela não sabe, mas o nome de todas as ex-namoradas sabe, sim. e ele então se pergunta de que valeu ainda lembrar dela naquela canção de caetano, se só o que ela lembra é de quando ele atendeu um telefonema de outra. ele então se pergunta de que vale escrever carta se ela provavelmente diz que ama infinito em cima de outros lençois. ele se pergunta todo maldito dia quando levanta de que adianta pensar nela em todo filme de amor se ela já escreve roteiros em que ele não aparece. ele olha no espelho e não faz outra coisa senão perguntar de que vale essa maldita lembrança tatuada na pele se ela pinta quadros com a casa de varanda que imagina com outro. o que ele não sabe é que tudo o que ela faz é pra ele também. ele não sabe que se ele lesse as cartas que ela escreve, ele ia achar que é pra ele. que é na textura do cabelo dele que ela pensa quando em cima de outra cama, e que ela acha a coisa mais bonita a lucy harmond descobrir que quem mandava as cartas era o irmão, e que são roteiros assim que ela escreve. ela tem outro e ela jura amor eterno. isso ele sabe porque deve imaginar. porque ela é assim. é que, em silêncio, ele não sabe que ela… que ela sabe que nada no mundo é igual a jesse e celine, joel e clementine, abelardo e eloisa.
“ah, se eles soubessem o que eles pensam saber…”
[fevereiro de 2006 ]
O dia-a-dia
O dia andava arrastado, de muletas. Andava com uma enorme interrogação no meio da testa. Não sabia pra onde ir. Levantou da cama muito tarde. Era quase meio dia , quando com uma angustia súbita abriu o olhos. O dia havia passado a noite discutindo. O dia até com a lua implicara. Não entendia porque tão brilhante, tao acesa. Assim ofuscava a visao, assim apagava o brilho das estrelas. O dia, é claro, era apaixonado pelo sol. Quente, amarelo, poderoso, forte. O dia gostava do verão. E agora os dias eram nublados. E agora as nuvens deixavam tudo cinza.
O dia passou muito tempo pra se acostumar com o hábito das pessoas. Esse hábito de colocar películas nos vidros dos carros. Alguns ainda usavam a desculpa que era por causa da segurança. Outros, sem meias palavras, diziam logo que era por causa do calor. O dia assim se sentia vilipendiado. Nascia tão bonito, tão forte e tão claro, cheios de tons de azul, e as pessoas faziam questão de se afastar dele. O dia não entendia. O dia nao compreendia como as pessoas poderiam só querer determinadas coisas por partes. Ele sabia que era preciso, pra amar verdadeiramente, levar o pacote completo.
E o dia então estava assim. Cheio de dúvidas. Querendo não nascer, querendo ficar deitado sob cobertas, longe do mundo, longe das pessoas, longe de toda a incompreensão que era viver com seres tão contraditórios, tao complicados.
O dia sempre esteve aqui, muito antes dos substantivos, das palavras, dos verbos. Muito antes dos sentimentos, muito antes de nós. E ele sempre se dedicou a dar vida, a prover o nascimento, a assistir a proliferação da vida. O dia só queria ser. O dia queria poder exercer seu papel. O dia só queria não se esconder, só queria ser, sem precisar disfarçar.
Silêncios
Mais do que todas as palavras tolas que você me falou enquanto estávamos juntos, seu silêncio agora é o que mais me machuca. Mais do que seus atos displicentes, distantes e descabidos, essa sua reticência me atormenta cada pedacinho do corpo. Voce não sabe o quanto eu tenho vagado pelas noites pensando em lhe telefonar em qualquer uma dessas madrugadas só pra lhe dizer o quanto seu silêncio tem me agredido. O quanto tem me molestado.
Voce desapareceu. Voce me deixou aqui. Você simplesmente saiu pela porta e me abandonou sozinha com todos esses móveis, com todos esses cds, com todos esses livros que estão impregnados da sua presença. Eu encontro páginas marcadas, frases sublinhadas e é nesses pequenos esquecimentos que me lembro que o amor que sinto por você ainda está aqui.
Amor nao morre, não é mesmo? Amor é um negocio que dura pra sempre. As pessoas é que nao compreendem direito. Será mesmo que eu compreendo? Sei que me doem muito os sonhos que não acontecem e que a gente desconfia que não vão mais acontecer. E você me dói muito. Seu silêncio é constrangedor. Assim como os seus vestígios na minha vida. Eles denunciam o meu apego a toda a utopia que é querer ter alguem pra sempre. E você nao volta. Sei que nao. Você sequer me conta sua vida. Você me deixa aqui jogada com lembranças e reminiscencias. Voce não me reclama. Você nao me diz mais que sou sua por direito. Que você me conquistou. Que nos conquistamos e agora vamos ter que arcar com todas as consequências.
E sabe, eu preciso lhe contar, eu fiquei perdida um bom tempo. Escondi minha dor de todo mundo, fingi que minhas dificuldades eram simples, parei com esse papinho de que eu preciso de amor , que todo mundo precisa de. Parei com tudo que seria muito dificil pra mim ou que pelo menos parecia dificil aguentar. Eu calei o verbo. Todos. Eu parei de teorizar tudo. E parei de ler romances de amor. Eu só queria o prático. Eu fechei meu coração. Mudei a músicas que eu escutava, dei os filmes que gostávamos de ver juntos, parei de frequentar nossos bares.
E tudo parecia correr bem até que eu abri um dicionário e encontrei a palavra des.ti.no sublinhada, com uns corações do lado. Foi idéia nossa. Estavamos juntos. Ai doeu de uma forma louca. Lembrei de tudo e agora eu queria muito que esse seu silêncio fosse interrompido por suas ligações noturnas. Tudo voltou a doer. A latejar. Tem me maltratado.
Eu sei assumir que nos perdemos. Eu sei. Eu assumo tudo, tudinho. Mas também assumo que eu nao sei se vou ser capaz de conseguir lhe esquecer por completo.
Queria me soltar, me desligar, me desprender. Pra sempre.
era de tarde e eu senti saudades do seu sorriso. alguém sorria tao bonito na rua, e da janela do carro eu vi, e era um sorriso que me lembrou o seu. bem que me disseram que depois de um tempo qualquer raiva vira saudade pura. nao tenho medo de clichês: amor realmente nao basta quando duas pessoas vivem momentos diferentes. quando o amor é de primeira, e no olhar as almas se encontram e se amam, o amor pode ser extremamente bonito, mas também frágil demais. e mais uma vez sendo comum, lhe digo que sentimentos delicados sao como cristais. e, portanto, digo também que há vasos que precisam ser tratados com extrema delicadeza. e palavras rudes sao tombos altos. a decepçao condicionaliza o amor, que, pra ser amor, há de ser incondicional. ainda que as almas saibam que o amor é de verdade, as pessoas precisam conhecer profundamente o caráter da outra para nao precisar ficae segurando o vaso o tempo inteiro. nos amávamos, nao tenho duvidas. e, por isso – somente e o bastante -, nao tivemos medo de deixar o vaso sobre a mesa. e hoje quando olho os cacos, um deles é a janela do carro pela qual eu vi um sorriso que me lembrou o seu. e me deu saudades. e mais do que lembrar dos passeios que nao chegaram a acontecer, das comidinhas gostosas e os desenhos que nao fizemos, os seus cacos de amor que voce nao contou, as alegrias e as tristezas que nao aumentaram ou diminuíram ao dividirmos, mais que tudo isso eu olho pra os cacos e lembro que esta em cada um deles. tudo o que aconteceu e fez de mim uma pessoa melhor. porque a alma ainda ama. se eu tivesse cola, eu juro que tentava colar. ainda que nao fosse nunca ficar igual.
originalmente em lvthdream. 2007
Eu passarinho
Pra que serve a poesia no dia a dia da gente? Pra que serve um dia a dia sem poesia? Pergunto-me isso enquanto aguardo pacientemente as 13:10, horário em que um vôo me levará de volta para casa. Quem gosta de viajar e é de Teresina sabe: as vezes é muito desgastante ir pra algumas cidades, mesmo de aviao, por conta da falta de vôos diretos. Acabamos entregues a horas dentro de aeroportos e o que nos resta, na falta de companhia, sao livros e artificios tecnologicos. Tenho um livro de Mario Quintana nas mãos e a orelha está marcando-o no esconderijo do tempo. Li e reli. Rabisquei algumas coisas nas entrelinhas e enquanto espero, acabo descobrindo que os pensamentos do Mario servem, entre outras coisas, pra clarear sentimentos, amansar corações e, acima de tudo, para nos ajudar a realmente viver com poesia.
Porém, para viver com poesia, precisamos reaprender a olhar para tudo com o coração cheio de assombro e despedida, com os olhos de um menino e de um condenado, puxando perplexidade, beleza e ineditismo das cenas, dos sentimentos, das emoções, dos silêncios, das palavras, dos paradoxos, do cotidiano e das pessoas mais comuns, como sempre fez Mario Quintana. Ah, e ninguem precisa ser poeta para viver com poesia. Assim, quem lê o Mario percebe que a beleza está disponível para nós o tempo todo, mas que também precisamos ficar disponíveis para ela. Não so para as belezas oficiais dos cartões-postais, das pessoas e dos objetos mais comentados, mais desejados e mais reparados. Mas, principalmente, precisamos nos disponibilizar para as belezas que, ao longo do tempo, costumam se tornar invisíveis, por causa dos nossos atropelos e das nossas urgencias mais sem importância. Urgências a parte, Quintana dizia que o fato é um aspecto secundário da realidade. Entretando, o fato é que a poesia nao tem hora, é a hora que tem poesia. O Mario, como ser sublime, sensível que é, nos seus textos, não transforma imagens em poesia. Ele vê poesia nas imagens. Ele vê poesia em tudo. Afinal, a poesia não é um lugar ou um estágio que o poeta consegue chegar. A poesia é um modo de ser, é um meio de olhar. A poesia deixa a vida enchida de beleza, e a beleza também enche a gente de poesia.
Espero que cada vez mais pessoas leiam o Mario. E que, assim como eu, se descubram nos livros dele, que nasceu azul de frio, na noite mais gelada do universo, em Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul, e que nao se casou, nao teve filhos, mas que passou a vida apaixonado pelas moças bonitas das cidadezinhas do interior. Aliás (de onde estiver), tomara também que o Mario sempre possa ver uma dona, na cidade ou no campo, lendo um dos seus livros, e um menino , de 14 ou 90 anos, usando as palavras do poeta para revelar à sua amada coisas que ele sentia mas que nao conseguia dizer por medo, falta de clareza ou excesso de amor.
Hoje, Mario amansa meu coraçao.
“(…) todos os encontros sao adeuses.”
Lista B
Eu não tenho o menor saco pra bajulação. Papo sério. Se tem uma coisa que eu acho chata e difícil de lidar é com caras que metem na cabeça que eu sou uma pessoa maravilhosa, que estão apaixonados por mim e que querem ter qualquer coisa comigo. Eu me sinto lisonjeada, claro, mas não sei o que fazer com as ligações, com os convites, com as declarações. Fico sem jeito, acho injusto não gostar de quem gosta de mim. Eu fico numa agonia louca. E geralmente eu dou com a lingua nos dentes e sou até meio grossa. Não dá. Não consigo me forçar a ter casinho com quem não me desperta interesse. Sou muito de pele. Tão ucraniana quanto Clarice, toca ou não toca. Não sei tirar proveito de caras que estão interessados em mim. E olha, tá assim de mulher fazendo isso no mundo. Sério. Por conveniência, por ter alguém pra jantar, pra ir no cinema, pra não parecer sozinha. Eu não to nem aí se acham que eu to sozinha e ninguém me quer. Não to nem aí se eu não for a pessoa mais cheia de admiradores do mundo. Principalmente se quem me admira mal me conhece.
Só que de vez em quando um cara muito bacana aparece. Liga, manda mensagem, diz que quer sair comigo. Um cara educado, gentil, que quer me conhecer melhor. Aquele cara geralmente tá na lista B, uma lista de homens que eu admiro, que eu acho bacanas, mas que eu não me envolveira. Loucura? Sinceridade. Aí lá vou eu. Dou uma chance.
Saimos, conversamos e o cara é incrivel mesmo. O cara é o que todas as mulheres desejariam pro resto da vida. Atencioso, lê o que eu escrevo, inteligente, interessante. E entre um zilhão de caipifrutas de todos os sabores da galáxia ele me rouba um beijo. E eu não tenho um arrepio sequer. É péssimo. É triste. É horrendo. É horripilante.
Porque eu tolero um monte de coisa.Tolero uns assuntinhos bestas, tolero um pouquinho de falta de educação. Tolero um pouquinho de machismo. Mas a falta de arrepio, a falta de química é intolerável. Meu corpo então rejeita. E eu vou pra casa me sentindo a pior das criaturas humanas.
Vou pra casa e ainda meio embreagada de vodka sinto vontade de ligar pro cafajeste que não vale um vintenzinho. E ligo. E xingo. Ele provavelmente fica sem entender nada, mas ainda assim ri. Ele sabe o que provoca, sabe do que é capaz. Sabe que nem toda a filosofia, todo o conhecimento politico do universo, nem toda a educação, nem todo o bom gosto musical, conseguem desativar do meu cérebro o interesse e a atração física maluca que sinto por ele.
E eu fico louca de ódio. E eu fico com uma raiva tremenda. Por que será que esse negócio de pele mexe tanto com a gente? Vamos ser racionais? Vamos? Mentirinha. Em se tratando disso, se for racional demais estraga. Se pensar demais, analisar demais, vai pro buraco. Dá bode.
Mas que eu tenho vontade de arrastar o cara da lista B pra lista A, eu tenho!
Como era no princípio…
Ele foi um dos primeiros homens que amei na vida. E as nossas memórias permanecem muito vivas. Esquecido por uma tia, na sala de estar, Noites Brancas não me chamou a atenção, mas o tomei pra mim porque na época nao estava envolvida com nenhuma outra leitura. Acho que eu tinha uns 15 anos de idade e eu até tinha um blogzinho, o jardim secreto, no famigerado Weblogger, mas, escondida por um pseudonimo, só tratava de trivialidades. Eu não pensava em ser escritora. Acho que nunca levei isso tão a sério.
Comecei a ler Noite Brancas e fui me apaixonando aos pouquinhos. Dostoievski o escreveu quando ainda era novo. É um livro pequeno, romântico e que acabou influenciando a minha formação. Fiquei devota de Dostoievski e da forma como ele tinha simpatia pelos “humilhados e ofendidos”. E era assim que eu me sentia naquela época. Exatamente porque eu não me encaixava em nada. Nem fisicamente, nem na maneira de pensar. E eu sentia que ele me entendia. O primeiro homem a fazê-lo de forma tão definitiva.
Dostoievski me ensinou a ver e viver o amor. Depois de lê-lo passei a buscar então amores perdidos. E me perder nas buscas. O amor perdido passou a ter uma beleza incomporável. Foi o que motivou textos e textos, pensamentos e pensamentos. Foi essa busca que fez eu ter tanto assunto para tantos blogs.
No livro de que eu falo narrador, aspirante a escritor, vê sua amada, Nástienka, partir rumo a um homem bem mais interessante que ele, e diz: “Erguer uma nuvem escura sobre sua felicidade clara e serena; levar tristeza ao seu coração, acusá-lo e fazê–lo amargar um remorso secreto, obrigando-o a bater tristemente num momento de júbilo; pisar uma só das flores ternas que adornarão suas madeixas negras quando for com ele ao altar … Oh, nunca, nunca! Que seja claro o seu céu, que seja luminoso e sereno o seu lindo sorriso; abençoada seja você pelo momento de júbilo e felicidade que concedeu a um coração agradecido. Meus Deus! ! Não será isso o bastante para uma vida inteira?”
Sem dúvidas, foi uma das coisas mais lindas que ja li em toda a minha vida.




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